fbpx

Foi por medo de avião

Já é sabido que eu odeio avião. Eu sei que ele é o segundo meio de transporte mais seguro do mundo, mas quem se importa? Se cair eu vou morrer, então voar é o tipo de tortura psicológica que eu não consigo me acostumar. Por isso, criei teorias que funcionam (ou não) na minha cabeça.

Se tiver criança no voo, nada de ruim pode acontecer. Se tiver excursão pra Disney então, tô salva. Não há o que justifique nenhuma maldade com pessoas vestindo moletons brancos e orelhas de ratos falantes. 

Se tiver casal apaixonado não cai, porque Deus não faria isso com uma galera que virou Domingos no Tinder até, enfim, conhecer a alma gêmea.

Em contrapartida, se tiver velhinho, fodeu. Se tiver pouca gente no voo, acho que é Deus economizando pra matar um grupinho seleto de uma vez só. Se tiver padre eu já simulo um desmaio pra não entrar.

Grupos de jogadores gringos, pra caracterizar MESMO que é uma tragédia. Além de morrer, ninguém vai lembrar de mim porque só vão falar do Soarez que batia um bolão. Que Deus o tenha. 

Hoje fiz uma viagem curta, de 1:15h só. Pensei “Não há de ser tão ruim, mal vou subir e já vai estar pousando”. Esperei no portão de embarque 8, e vi a fila se formando com os que seriam meus companheiros de voo pela próxima 1 hora de mantras entoados entre um “Oooouuunnn” e um “Putaqueopariupiloto, tem carga viva aqui!”; e fiz o que sempre faço, analiso os perfis pra determinar se chegou minha hora ou não.

Até que vejo indo em direção à fila uma vovozinha segurando um bebê fofo, pensei: “Deus, o que você tá querendo me dizer? Assim tu me confunde!” 

Minutos depois se aproxima do portão de embarque o que seria um time… de futebol…Paraliso. Não me pareciam ser gringos, mas me garanti ouvindo atentamente conversas alheias até chegar à conclusão de que o time se chamava Avaí. Estaria a salvo? Era Avaí, sem H. Será que o estagiário no céu iria entender que não se tratava de um time com jogadores havaianos dançarinos do hula -hula? Eu esperava que sim. 

Entrei no avião, assento 4E. Fui olhando pra cima imaginando onde eu iria enfiar minha mala já que todos os jogadores entupiram os compartimentos com malas azuis, idênticas. Achei meu assento, empurrei algumas malas, encaixei a minha. Olhei pras poltronas; meu assento era o do meio. Janela e corredor ocupados por 2 velhinhos de 100 anos cada. Gelei. 

Olhei pra ela e perguntei : “- Vocês estão juntos? Eu posso sentar aqui no corredor se quiser”. Ela me diz “- Não, não! Obrigada pela intenção mas o meu par é ele aqui”, apontando pra um senhor que beirava uns 120, sentado no corredor do lado oposto. Ela diz “- Sempre sentamos no corredor, no caso de termos que levantar depressa”. O meu sorriso era de desespero.

Sentei, respirei fundo e aguardei a morte chegar. No meio do voo, recebemos uns biscoitinhos salgados da companhia aérea, e eu pensei: “Minha última refeição vai ser um pacote de biscoitos integrais da Mãe Terra. Que ironia”. Olho pro lado e a senhorinha não conseguia abrir o pacote. Perguntei “Quer que eu abro pra senhora?” Ela disse “Ah, por favor eu tremo um pouco e não consigo abrir”. Pensei “Se essa merda cair, ela não vai conseguir colocar a máscara de oxigênio em mim. Por quê Deus? Por quê?!”

O voo seguiu, tranquilo, como se eu estivesse no sofá da sala. O piloto anuncia pouso e eu desespero; penso que fui torturada até ali por uma hora pra morrer no fim. Olho pra senhorinha como quem pede colo, e ela me olha compadecida da minha agonia. Falo: “- Sabe o que é? Não consigo acostumar com avião” Ela diz “- Tem medo?” Eu digo “ – Tá mais pra pavor” Ela pega na minha mão: “- Não se preocupa não, antes de subir eu rezei bastante.” Eu digo “ – Que sorte a minha pegar esse voo com a senhora então”. Ela finaliza me dando uma piscadela : “- E olha que bom, aqui no voo ainda tem um time de futebol inteiro pra te ajudar a descer mala.” 

Eu ri. Sorri. 

Descemos do avião. Ela sentido a esteira de malas me desejou boa sorte na volta e eu fui embora pensando que a vida surpreende a gente o tempo todo, que o medo é paralisante, e que o monte de certezas que a gente tem, não passam de “achismos” sem sentido, que guiam a gente pra lugar nenhum. 

Cultivamos hábitos ruins, cristalizamos certezas absolutas, e vivemos uma vida toda como crianças girando com a testa no cabo de vassoura. Não pode parar, senão vai cair. 

Mudar dá um medo danado, te exige coragem de Kamikaze e vez ou outra não vai sair como planejado. E tá tudo bem. Tudo bem arriscar, tudo bem errar, tudo bem se arrepender, tudo bem voltar atrás. O que não tá tudo bem, é você viver uma vida toda calçando esses sapatos 2 números menores do que o seu, porque não aprendeu a falhar.

Não sofra pelo que não pode controlar. Solte as amarras imaginárias que você mesmo criou.

Acredite, é libertador. 

Raquel Parilla
Raquel Parilla
Ela tem urgências, espaços e reticências, mas nunca ponto final. Sofre de sincericídio agudo e paixonite crônica. Não gosta de meios termos, meias palavras, nem meios amores... mas admira as entrelinhas. Tem humor ácido, gosta de filmes antigos e de contar histórias cheias de detalhes. É uma procrastinadora de dores. Tem tempestades silenciosas e Alzheimer selecionado. Só fica se for por vontade. Se perde com pontos cardeais. É camaleoa de pompa. Hoje é cintilante, amanhã não se sabe mais.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

veja

MAIS